Preservação de fotografias e impressões Fine Art (primeira parte)

"Napalm Girl" de Nick UT vista de frente e verso

“Napalm Girl” de Nick UT vista de frente e verso

Introdução:

Este é o primeiro de uma série de textos sobre preservação de fotografias e de artes impressas que irei publicar nas próximas semanas.

Dentre todas as perguntas que frequentemente me fazem, as sobre preservação e longevidade das impressões são as que costumam me consumir mais tempo respondendo. Isso não é por acaso pois essa questão é importantíssima e, ao contrário de muitos outros assuntos, é extremamente difícil encontrar informações corretas sobre esse tema na internet ou mesmo em cursos presenciais. Para piorar existe muita informação errada sendo propagada intencionalmente por pessoas e empresas inescrupulosas que visam ganhar com a desinformação do público.

Nos textos que seguem eu pretendo apresentar fatos e suas referências, sejam elas bibliográficas ou práticas. Não quero, de forma alguma, impor minha opinião sobre esses assuntos, mas existem alguns fatos comprovados pela ciência e pela vivência que não são ponto de debate. Toda vez que eu estiver dando a minha opinião pessoal eu marcarei em negrito as palavras “na minha opinião…”.

Ao falar sobre as ampliações fotoquímicas vou me ater aos dois tipos mais comuns no último século: a fotografia em preto & branco de halogenetos de prata e a fotografia colorida cromogênica.

Ao falar sobre impressões sempre deixarei claro o tipo de impressão em questão.

Antes de prosseguirmos para a parte objetiva convém fazermos um “reality check”, firmarmos os pés no chão e entendermos que talvez nem tudo precise ser preservado. Não tem nada de errado em se fazer uso de processos de impressão e montagem que tenham pouca longevidade, contanto que se faça de forma consciente e que não se omita essa informação dos compradores, no caso de uma venda.

Precisamos também separar claramente os conceitos de “preservação da memória” e de “preservação do objeto”. Explico:

Imaginem uma pintura famosa de valor inestimável, por exemplo a Monalisa. Essa pintura já foi escaneada e microfotografada de todas as formas possíveis. Se um dia o quadro se acabar (em um incêndio, por exemplo) a memória de sua existência estará perfeitamente preservada. Réplicas poderão ser produzidas com um nível de detalhe tão impressionante que apenas os experts notarão a diferença. Os estudantes continuarão podendo estudar as opções estéticas de Da Vinci e até as suas técnicas de pintura por essas réplicas, mas elas não serão “a” Monalisa e não terão sequer um milésimo do seu valor. Nesse caso hipotético o objeto se perdeu, mas a memória foi preservada.

Fotografia de Elliott Erwitt em montagem clássica de preservação

Fotografia de Elliott Erwitt em montagem clássica de preservação

Com a fotografia artística e com a arte digital a coisa é um pouco diferente. Na fotografia fotoquímica geralmente temos um negativo. Esse não deve ser encarado como um original, mas como uma “matriz” a partir do qual podemos gerar as fotografias propriamente ditas. O conceito não é muito diferente das esculturas fundidas em bronze ou das gravuras, onde o produto final é derivado de uma matriz e é possível a existência de múltiplos “originais” da mesma obra. Tanto na fotografia quanto na gravura e na fundição em bronze o valor de “obra” é atribuído às peças finalizadas, as matrizes (incluindo os negativos) possuem relevância histórica e devem ser preservadas pelo seu valor de memória, mas não são “as” obras.

Na fotografia digital e na arte digital não temos a existência material da “matriz”, ou seja, não temos um negativo físico. Mas nessa era digital já estamos (ou deveríamos estar) carecas de saber que uma coisa não precisa ser necessariamente material para existir. O “negativo” ou a “matriz” exitem sim, mas em forma de dados gravados no seu cartão de memória ou no seu HD. Da mesma forma que o negativo precisa ser processado e interpretado para gerar o “original impresso”, os aquivos digitais também precisam ser processados e interpretados para gerarem os “originais impressos”.

Notem que em todos os processos de produção de arte em múltiplos a partir de matrizes, a “obra” é sempre o produto final, nunca a matriz. O mercado de arte comercializa objetos e apesar desses objetos terem seu valor derivado do talento e da criatividade de seus autores, ainda são objetos.

Isso é um ponto importantíssimo e fonte de um grande debate que transcende o meio acadêmico e atinge situações mais “mundanas” como a contratação de apólices de seguros, por exemplo. Se uma pessoa compra uma fotografia contemporânea parte de uma tiragem limitada, digamos a terceira de uma tiragem de seis (3/6), e faz seguro dessa obra, o que está sendo segurado? Aquele objeto específico ou uma cópia daquela obra, naquele tamanho, com aquela numeração e com a assinatura do autor?

Olhem como a coisa pode complicar: Se essa foto do exemplo acima apresenta problemas decorrentes da montagem feita pelo autor (uma adesivagem em uma base imprópria que danificou a obra em poucos anos, por exemplo) e o autor se prontifica a repor a obra, será que isso seria certo? Se a tiragem limitada agrega valor pela exclusividade em função do comprometimento de que seriam feitas apenas seis cópias (neste exemplo) desta imagem, seria correto imprimir uma sétima, ainda que para repor a terceira? Em muitos casos como esse as seguradoras entendem que não, justamente elas que deveriam ser as maiores interessadas em não pagar a indenização. A lógica é que a peça segurada era um objeto tido como original e parte de uma série limitada, sendo de reposição impossível. A produção de outro, ainda que tecnicamente possível, não geraria o “original 3/6” e comprometeria o valor de todas as peças da série.

Fiz essa digressão para explicar o porque de, na minha opinião, a possibilidade técnica de se produzir peças de substituição não poder ser encarada como alternativa à preservação dos objetos comercializados como arte.

Em outras áreas não diretamente relacionadas ao mercado de arte esse conceito de “original impresso” perde o seu significado. Uma foto documental, por exemplo, não tem seu valor atrelado às cópias, o valor está em seu conteúdo e na forma como ele foi captado pelo autor. Existirão milhares de cópias impressas em jornais e revistas e todas serão apenas cópias. Nesse caso a preservação dos negativos/arquivos suprirá perfeitamente a função de preservação de memória.

Por enquanto é só. Nos próximos textos abordaremos algumas questões práticas sobre a preservação.

16 comments to Preservação de fotografias e impressões Fine Art (primeira parte)

  • Feliz de ver um pouco de nossos diálogos (eu ouvindo e você ensinando!) no FINEART INSIDE ganhando corpo. Saindo da matriz e se transformando em obra.
    Incrível mesmo é que semana passada iniciei a catalogação de artigos e sites referentes à CONSERVAÇÃO em matéria de arte e fotografia.
    Parabéns, Geraldo. E obrigado.

    • Geraldo Garcia

      Obrigado André!
      Como conversamos no Fórum, este é um dos muitos projetos de artigos que eu tenho engavetados e que não finalizava por falta de tempo. O tempo ainda não surgiu, mas a necessidade de se abordar esse assunto se tornou tão grande e a insistência da minha “sócia ao quadrado”, Daniela Bado, foram forças impossíveis de ignorar.
      Grande abraço.

  • Excelente começo, Geraldo.
    Faço votos que a continuidade seja tão objetiva quanto essa introdução!
    Permita-me filosofar,porém: não acho que sejam as seguradoras os agentes ideais determinantes do que é a obra, se o conteúdo, a matriz ou a cópia. Senso comum e séculos de arte sendo comercializada, preservada e destruída devem prevalecer. Também não penso que “o mercado” deva ter a palavra final: há demasiados interesses ocultos sob a palavra “mercado” que são, no mínimo assustadores.
    De qualquer forma, a discussão promete ser interessante.
    E concordo 100%: Será que TUDO o que é produzido hoje deve ser preservado indefinidamente? Ou há muita porcaria sendo feita sob a alcunha de “arte” que o tempo filtrará?

    Abraços,

    Clicio

    • Geraldo Garcia

      Grande Clicio,

      Lúcido como sempre. Concordo totalmente que existem interesses ocultos (alguns nem tão ocultos assim) por parte de muitos “players” nessa área. Na verdade a minha “resposta” (que de forma alguma será uma “resposta”, apenas um detalhamento da minha opinião sobre essas questões que você citou) virá no próximo texto, que pretendo publicar na próxima segunda.

      Obrigado e grande abraço.

  • Fernando Righetto

    Acredito que temos em mãos um sistema gerador de originais de qualidade, digo originais pensando em cada detalhe do tratamento e midia utilizada para a produção da obra, se uma determinada foto for PB ou cor, ou tratamentos diferenciados, são consideradas obras diferenciadas…enfim, da mesma maneira também acredito que a substituição de uma obra danificada ou mal acondicionada não deva ser feita, isso se caracterizaria como mais uma peça da tiragem, a obra “original” deve guardar ou manter as marcas do tempo…em obras produzidas a partir de sistemas de impressão fine art modernos.

    O mercado ainda é muito novo, acredito que temos o dever de educar as pessoas para as mudanças que ocorrem, o uso dos papéis, os pigmentos e principalmente sobre a preservação…pois é a base para utilizarmos todos os substratos e materias que usamos, e, de certa forma, justifica os altos valores empregados.
    Como sugeriu o Clício, claro, há muita porcaria sendo produzida, porém, esta facilidade está gerando, não na mesma velocidade, novos artistas, novas linguagens, que serão aceitas mais para frente como arte, falo de produções concisas e pensadas com estudo e embasadas em trabalhos de qualidade, e não da “arte” simplesmente por que quem a produziu a chamou assim, afinal, todo filho é lindo.

  • Geraldo Garcia

    Olá Fernando,

    O texto ainda nem entrou nas práticas de preservação propriamente ditas, mas é fato que grande parte das pessoas atuantes no mercado (principalmente no mercado Brasileiro) estão alheias às questões pertinentes à preservação. Exceções são os conscientes.

    Grande abraço.

  • Ótimo texto Geraldo.
    E me levou a questionar uma coisa totalmente relacionada à questão de tiragens.
    Tudo bem que, em seu exemplo, uma sétima cópia jamais seria a 3/6 da tiragem.
    Mas o que me questiono é, se deixar de lado a questão do valor do “objeto”, mesmo que uma nova impressão tivesse nuances sutis como a própria variante de lote, tinta, tiragem do papel, perfil de cor, etc., que a fizesse ser “sutilmente” diferente da tiragem (o que por si só já deixaria a tiragem inicial como única), enfim, se deixar essa questão monetária de lado e existe a possibilidade de reimpressão até pelo próprio artista, por que esta não pode ser tratada como um objeto de arte? Digo mais. Supondo que as seis cópias sejam “destruidas”. Uma nova tiragem não seria arte?
    Imagino que comercialmente o valor de uma “primeira edição”, em tese, é superior às demais. Isto já não seria suficiente?
    Tenho certeza que para uma minoria não. Mas e os outros?

    • Geraldo Garcia

      Oi Felipe,

      Obrigado. A questão não é se seria arte ou não, isso nem se discute. A questão é que seria quebra de contrato. Ao se fazer uma tiragem limitada o autor está, voluntariamente, declarando que produzirá apenas “X” impressões daquela forma e naquele tamanho. Ele faz isso, repito, voluntariamente para agregar valor de exclusividade à sua obra. Nada de errado nisso, mas não acho que uma regra possa valer apenas quando convém à uma das partes. Ao imprimir e assinar além da tiragem combinada um autor está *de fato* quebrando contrato e ainda, segundo muitos, cometendo estelionato. Por isso alguns artistas colocam em seus contratos cláusulas de reposição e assim se livram da questão legal. Mas e a questão moral? É aí que reside o debate: Se os artistas e galeristas usam e abusam dos termos “original”, “exclusivo”, “restrito” e “controlado” para cobrarem mais caro por uma obra, será que ele podem terminar o discurso com “Mas fique tranquilo que se der problema eu imprimo outra pra você, tá?“, será que isso está certo?

      Abraços.

      • Geraldo;

        Não, não está certo.
        A terminologia é uma falácia, pois o que significa realmente “restrito”?
        E “controlado”?
        “Controlamos” as tiragens de nossos clientes, mas *não podemos impedi-lo* de imprimir (com impressores não tão conscientes) novas tiragens ou outras cópias. Nnao serão certificadas, mas será que todos os compradores exigem certificados?

    • Repor a tiragem é inaceitável.
      O que muitos artistas fazem a título de prevenção e de exploração pessoal é a impressão de “Artist proof”. Esse é um fenômeno comum na Europa e que garante a exploração de mais edições pelo artista. Normalmente a AP, prova do artista, se limita a duas impressões ou apenas uma. Você precisa informar às outras tiragens da existência dessas provas do artista, por exemplo: Edition 3/6 + 2AP.
      É sempre bom garantir a AP. Aqui na europa já acompanhei leiloes de AP apenas.
      A AP não é necessariamente uma prova que falhou em cores, ou em papel diferente, ela pode ser exatamente como as ‘originais’, ela serve mesmo para garantir a exploração pessoal do artista. Seu valor normalmente é inferior ao da tiragem. Ela serve também para doação.

  • Fernando Righetto

    Felipe,
    Existe uma questão ética, em que cada printer ou produtor segue como bem entende, porém, a ética de cada um é que vai prevalecer no mercado, principalmente direcionando os artistas.
    É muito comum pedirem nossa opinião sobre o “como proceder” no caso das tiragens, das assinaturas das obras, da comercialização, não existe ainda uma convenção mas existe uma ética, alguns procedimentos, uma maneira de fazer e esta não é nova.
    Da maneira como você falou, claro que fica fácil a reimpressão com qualidade a qualquer momento, mas estaria, o artista, dando um tiro no próprio pé, concorda?
    Penso que, em pouco tempo, vamos sentir a necessidade de reunir os impressores para formatar uma convenção de trabalho, mais ou menos como uma norma de qualidade.
    Abraços a todos

  • André Azevedo

    Ótimo texto, sou fotógrafo publicitário mas acompanho o “movimento” fineart a alguns anos, adoro a qualidade de impressão e toda a parte técnica por trás, o papel, as conversas sobre os assuntos técnicos e filosóficos… sigo o Clício e o Geraldo desde meu inicio na fotografia e fico muito feliz em ver dois grandes ases comentando e discutindo no mesmo post.
    Espero que renda muitas partes Geraldo! Abraço

  • To aguardando o próximo post!

  • Ricardo Zanetta

    Fine Art. Finalmente encontro informações de “peso”. Eu buscava no mercado brasileiro discussões a respeito e quando localizei este blog foi como pingar colírio nos olhos depois de um dia de natação em uma piscina cheia de cloro.
    Assim como André Azevedo, acompanho também o Clicio Barroso a muito tempo e recentemente o Geraldo Garcia. Vou expressar também minha opinião sobre o tema.
    Minha escola na arte começou em pinturas com crayon passando por litografia….e é nesta etapa que tecerei meus comentários. Quando terminamos uma arte em uma pedra calcária, passamos para a etapa de impressão e é neste momento que definimos o número de cópias que a mesma deverá ter. Após definirmos (20 por exemplo) nunca mais existirá outras cópias além destas. Até porque após a impressão, a pedra é apagada, ou seja, matriz eliminada. O valor que estas obras terão com o tempo vai depender da fama do artista e do valor que os críticos e aficionados pelas peças, darão. Caso alguma se danifique, “não terá como repor uma outra cópia”. Não seria este o caso do Fine Art? Não deveríamos, após impressão limitada de cópias, destruir a matriz (raw)? Esta ação não fundamentaria o conceito ético para que estas obras possam ter mais credibilidade? Toda obra que possui muito valor….ela é única….portanto “assino” a opinião do Geraldo Garcia. Acrescento que o termo original para a Fine Art não deveria ser usado, pois define apenas a origem do produto e não a quantidade. O adjetivo mais adequado, na minha opinião, seria GENUÍNO.

  • Adoro fotografias preservadas, as fotografias serão no futuro as verdaeiras máquinas do tempo.

  • Procurando sobre fotografia fineart encontrei teu site. Ótimo texto e trabalho. Abraço

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