Fotografia como arte e a arte como ganha-pão

Foto: Geraldo Garcia

É muito gratificante presenciar e participar desse processo de ebulição da fotografia como arte. Percebemos que o objetivo dos fotógrafos não é mais o mero reconhecimento e a aceitação da fotografia como obra de arte, pois isso já é fato consumado. Também é evidente a preferência cada vez maior dos compradores de arte por fotografias, no lugar de opções mais tradicionais como pinturas e desenhos.

Muitos fotógrafos estão encantados com essa possibilidade de ganhar dinheiro com sua arte e talvez viver disso, mas as galerias não têm como dar conta desse volume crescente. Se considerarmos os preços praticados em galerias e leilões algo que não é novidade fica evidente: Comprar arte é para classe “AA” ou “A”.

Com isso surge um gargalo no mercado:

Foto: Geraldo Garcia

  1. Muitos fotógrafos produzem e querem comercializar suas obras.
     
  2. As galerias possuem uma capacidade limitada de comercialização e precisam optar por trabalhar com obras de valores mais elevados para conseguirem obter seu sustento.
     
  3. Os preços altos restringem o público comprador às classes mais abastadas (“A” e “AA”).
     
  4. A classe “B”, que é enorme, segue os passos e quer consumir mas fica sem opção.  

Isso significa que existe mercado comprador, mas dificilmente a estrutura tradicional de comércio por galerias de arte e leilões dará conta.

A questão em pauta, ao meu ver, é a criação de canais de distribuição apropriados para que os fotógrafos consigam comercializar suas obras de forma a atingir a classe “média”. Quem trabalha ou quer trabalhar nessa área deve pensar bastante nisso.

Em tempo¹:
A revista Fhox desse mês (outubro) traz uma interessante matéria sobre o mercado de fotografia de arte no Brasil com a visão de fotógrafos, impressores, galeristas e outros profissionais ligados à área, eu fui um dos entrevistados.

Em tempo²:
A Fototech, por meio de sua regional de Minas Gerais, está promovendo um evento chamado “A Fotografia e o Mercado das Artes”, um ciclo de palestras de um dia que acontecerá em 01 de dezembro de 2010 em Belo Horizonte com algumas das maiores autoridades nacionais sobre o assunto. Simplesmente imperdível! Eu vou do Rio para BH só para participar. Mais informações e inscrições no site da Fototech

Até a próxima.

28 comments to Fotografia como arte e a arte como ganha-pão

  • […] This post was mentioned on Twitter by Paulo de Loyola, Darlinton Ferreira, Darlinton Ferreira, BLOG DO FOTÓGRAFO, Daniel Martins and others. Daniel Martins said: Este Blog é mais do que recomendado! RT @geraldo_garcia Novo post no Blog: http://migre.me/1QWl5 […]

  • Caro Geraldo,
    Seu post nos leva a uma reflexão importante sobre esse nebuloso porém instigante assunto.
    Obrigado por ajudar a divulgar nosso evento!

  • É isso aí Geraldo, um mercado e tanto e em plena ascensão, nos vemos em BH.

  • Você vem?
    Que ótima notícia! Vai ser um prazer recebê-lo aqui!
    Obrigada por divulgar nosso evento, com certeza é de grande importância para o meio fotográfico.
    Abração, Lucia

  • Geraldo;

    Apesar de concordar com você, por que nnao apresentamos algumas opções/soluções para o gargalo?
    Acredito firmemente que o mercado de fotos na parede só vai crescer nos próximos cinco anos, e que é nossa obrigação alertar, orientar e sugerir saídas para os fotógrafos.
    Obrigado por divulgar o evento que a Fototech-MG está promovendo; certamente nos veremos lá!
    Abração,
    Clicio

    • Geraldo Garcia

      Grande Clicio!
      É verdade. Já está crescendo e vai crescer muito mais, mas o mercado tem que mudar um pouco para poder abraçar uma maior fatia do público consumidor. Pretendo levar essa conversa adiante.
      Obrigado pelo comentário e nos veremos em BH!
      Abraços.

  • Salve Geraldo,
    Será preciso um parâmetro bem definido para se classificar uma foto como arte. Não basta uma foto tremida e com cores desviadas para transformá-la em arte. Esse é o principal problema inicial.
    Quem vai chancelar a foto como arte? Precisamos de críticos sérios e preparados, galerias dispostas a abrir espaço para exibição e discussão desse processo e acesso aos colecionadores e marchands. Entender que o marchand não é um atravessador e sim um agente necessário para a comercialização correta da obra.
    Galerias trabalham também com volume, desse modo creio que a classe B poderá também ter fotos na parede. O fotógrafo deverá ter consciência que ele entrará no mercado de arte equiparado em preço às gravuras primeiro e essas tem preços bem acessíveis. O fotógrafo não pode achar que sua foto será vendida por 10 mil dólares no primeiro leilão que houver. A menos que tenha muita sorte, o caminho a ser percorrido é longo e penoso.
    Outra coisa que precisará ser entendida é o mercado da arte, que tem leis próprias, nem sempre lógicas.
    E os fotógrafos precisaram saber que o compromisso assumido, quando numera uma série, deve ser respeitado a qualquer custo , mesmo que a foto vire um sucesso. Não dá para brincar nesse mercado.
    Bem, são meus dois centavos.
    abraços,

    Sergio Araujo

    • Geraldo Garcia

      Salve Sergio!

      Que bom poder contar com sua lucidez por estas bandas.
      Apesar de concordar com suas colocações de modo geral, acredito que elas erram um pouco o alvo. A discussão sobre o que é ou não “arte” é uma árvore espinhosa e infrutífera da qual eu quero distância. São tantas as considerações que em última instância qualquer coisa pode ser “arte”, o que não significa necessariamente que seja algo de boa qualidade. “Chancelar como arte” é, ao meu ver, um conceito ultrapassado e exemplo da abordagem que precisa mudar (na verdade já mudou pois ninguém no mercado de arte pensa dessa forma a algumas décadas).
      Prefiro acreditar que o público não precisa ser “pastoreado” e tem direito de escolher o que bem quiser para pendurar na parede de sua casa. Isso não diminui em nada a importância dos galeristas pois ao realizarem a curadoria de seus acervos estes prestam um valoroso serviço de “garimpagem” de preciosidades e de percepção de tendências.
      Quando você diz que “galerias trabalham com volume e que isso poderia atender a classe B” eu penso que sim, poderia… mas não nos moldes de hoje no Brasil. Uma das coisas que estou torcendo para que aconteça por estas bandas como aconteceu na Europa e em alguns outros lugares é a proliferação do que chamo de “galerias de massa”, mas isso é papo para um texto inteiro.

      Grande abraço e apareça mais vezes!

  • Primeiro vou me apresentar, sou fotojornalista, trabalho no jornal Zero Hora, em Porto Alegre. Estava lendo sobre Fine Art, e encontrei este belo abordamento do assunto, que é tão diverso como é a própria fotografia. Estou interessado no assunto e aqui encontrei direções e luzes a serem percorridas.
    Abraços
    Tadeu

    • Geraldo Garcia

      Olá Tadeu,
      Obrigado e seja bem-vindo. Meu objetivo é compartilhar o pouco que sei e aprender com os colegas.
      Saudades dessa sua terra!
      Abraços.

  • Pat Duarte

    Hey Geraldo!

    Muito bacana o Blog. Parabéns pelas boas idéias e belas imagens.
    Ótima iniciativa.

    Aquele abraço,

    Pat Duarte
    Estúdio Grão

  • Geraldo,

    Você me convidou para aparecer mais vezes e aqui estou eu novamente. Agora aguenta…
    O assunto que você levantou, acho eu, coloca duas grandes questões: o mercado de arte e a venda de fotos.
    Esclarecendo meu texto, não se trata de pastorear o público, que, claro, compra o que quiser para pendurar na parede. Vide “Mercadão dos quadros” que vende muito. Qualquer loja que faça moldura, também oferece uma enorme variedade de poster para decoração (são fotos, não?). Quando falo em chancelar estou me referindo ao mercado de arte, que continua muito atuante no mundo inteiro e é o que regula preços e atribui valor. Por que fulano vale “x” e beltrano vale 10 vezes “x”? Quem determina essa diferença? O mercado.
    As galerias, museus, mídias especializadas, a crítica de arte, os curadores e colecionadores são alguns dos elementos que fazem a intermediação e na relação entre o artista e o comprador. Não vejo como essa relação possa ser diferente. Como esse mercado atua e age vale um mês de discussão e não vamos chegar a nenhum consenso. Mas é essa entidade abstrata que regula esse mercado, falando de arte. Que não tem nada a ver se é boa ou não (o que é arte boa?) e sim se tem valor financeiro ou não.
    Em relação ao trabalho com volume, isso já existiu. Aqui mesmo no Rio teve galeria que criou o consórcio de gravuras. Você escolhia um valor, dividia o pagamento e quando fosse sorteado ou acabasse de pagar escolhia uma gravura de seu gosto, dentro do valor desejado. Ficava muito acessível ter gravuras de Eduardo Sued, Amílcar de Castro, Vergara e uma infinidade de outras.
    Claro que há o mercado de venda de fotos, que não precisam, necessariamente, ter o status ou a chancela de arte. Acho que é mais a esse que você se refere. Realmente, existe um mercado se abrindo para fotos de decoração, ensaios pessoais, que está aberto a toda espécie de fotos, mas que ainda está muito incipiente, desorganizado e desorientado. Concordo que devemos começar a procurar meios de expandir e tornar acessível esse mercado. Quem sabe copiar, adaptando o modelo vigente até agora. Vejo que várias galerias começam a se especializar somente em fotografia e esse é um grande meio de atingir um público um pouco mais amplo, embora ainda restrito. Acho que o crítico pode e deve desempenhar um papel importante na separação do joio do trigo, dando credibilidade e viabilizando juntos às entidades patrocinadoras (privadas e públicas)a montagem de grandes exposições.
    Criar uma cultura visual sólida também é importante, quase como a criação de plateia para o teatro.
    Organizar muitas pequenas exposições itinerantes e levá-las aos estudantes e ao público em geral.
    Esse seminário que a Fototech está organizando é uma coisa muito importante. Que outros sejam promovidos, em outros estados.
    Acho que o caminho é longo e também vejo, como o Clício, que é trabalho para 5 anos até se começar a colher frutos.
    Desculpe a invasão de seu espaço.
    abs
    Sergio Araujo

    • Geraldo Garcia

      Desculpo nada! Invada mais vezes, o espaço é nosso.
      Eu pretendo abordar essa questão do “gargalo” que citei e de opções de comercialização em textos futuros, em função das alternativas que tenho visto.
      Grande abraço.

      • hehehe… acho divertido estas discuções, vocês já leram “O tubarão de 12 milhões de dólares”, de Don Thompson? Fala sobre o mercado e a economia gerada pela arte contemporânea. Nele o autor indica q quem atribui o valor a obra é o comprador. Tá certo que o Marchand dá seu ponta-pé incial, mas mais para dar alguma cifra. Dependendo da repercursão, o valor sobe e muito! Vale a pena ler, é muito instrutivo e gostoso. bjs Chris

  • Artigo interessante, sobre um assunto meio sem consenso. Fotografia é aceita como arte, mas que arte? Qual delas é arte? Mesmo dentro de um tema, por exemplo, natureza morta, pode ter as bem executadas e as más executadas. Ainda tem a arte de ver o momento, e saber pegá-lo, como a foto do parapente motorizado, quem ilustra o artigo, e te vi fazer. Você viu o momento e soube aproveitá-lo.

    Acho que a fotografia foi aceita como arte, mas nem todas não artes válidas, aceitas, ou vistas como produto de arte, e acredito que esta deve ser a parte mais conturbada da arte fotográfica.

  • Marcus

    O mundo da fotografia é tão intrigante e desafiador, como eu gosto disso, vou começar a fazer fotografia pelo IESB de Brasília, uma das melhores faculdades que já vi, tem uma mega estrutura e uma qualidade enorme reconhecida, vale a pena investir em educação de qualidade para casar com o seu talento e vocação. Grande abraço.

  • solar panel

    Seu post nos leva a uma reflexão importante sobre esse nebuloso porém instigante assunto.

  • Belo blog Geraldo. Essa reflexão se faz necessária. Vejo uma grande produção, mas pouca divulgação e comercialização quase mínima. A era digital trouxe muitos talentos à tona. Mas o HD do computador continua sendo, infelizmente, a única galeria para muitos.

  • Acabo de descobrir seu blog. Muito agradecido, mesmo.
    Sou professor em uma Universidade importante do ES e vejo alunos perdidos em relação a fotografia e a justa remuneração dela. Passarei adiante esse blog.
    Abraço

  • Informações importantes, obrigado por disponibilizá-las. Sou fotógrafo fine art independente, há 10 anos me aprimoro na criação de artefatos de luz (do Sol), registro fótons da luz do passado para sensibilizar mentes do Futuro; Adiciono experiências foto-sensíveis a este real, criações da poética “Subjaz”.

    Fotografia Conceitual
    http://www.ordileicaldeira.photoshelter.com
    22 2645 1419 | 22 8139 2800

  • ótimo artigo, fiquei muito surpreso pelo blog e essa matéria achei incrivel. Concordo em que a classe B quer consumir, para isso deve haver organização, planejamento e investimento nesse novo mercado.

  • Olá, Geraldo e demais colegas, infelizmente pouco se fala (e escreve) sobre esse assunto, talvez por a própria fotografia ser muito nova. O digital certamente trará muito material para o mercado, talvez saturando-o, talvez forçando uma diminuição de preços, ou como você falou, talvez forçando a criação de novos canais de comercialização, mais acessíveis, e fora da tutela das grandes galerias – inacessíveis não só ao comprador, como ao próprio artista, se esse não for ‘famoso’. Quanto ao marchand, é interessante que pesquiso no google, e não encontro praticamente ninguém que represente fotógrafos, ou que esteja aberto para representar fotógrafos. Escrevi um pequeno texto há um tempo atrás, “Considerações sobre o mercado de fotografia fine art”, e deixo o link aqui para vocês: http://www.fotografiafineart.com.br/index.php?option=com_content&view=section&layout=blog&id=3&Itemid=5 Abraço, Tiago da Arcela.

  • Ivete

    Geraldo, encontrei seu blog e achei a discussão bem interessante. Estou tentando comprar fotografias em P/B como consumidora final e encontro dificuldade em selecionar o que realmente é arte,e as galerias cobram preços abusivos, para fazer esta seleção. Sou leiga em fotografia,e gostaria de tua ajuda para alguma indicação de fotógrafos novos, com preços bons. Preciso de um conjunto de 5 fotografias em P/B que pode ser de arquitetura, ou outro tema interessante. Obrigada.

    • Geraldo Garcia

      Oá Ivete,

      Só para deixar bem claro: Eu não acho, de forma alguma, que as galerias cobrem preços abusivos. Eu acho que as obras que estão nas galerias tem o seu valor justificado e que o trabalho do galerista também tem o seu valor justificado. Se este valor está dentro ou fora do nosso orçamento isso é outra questão, mas o texto fala um pouco sobre essa demanda não atendida de peças mais em conta para a classe média. Infelizmente eu não saberia te indicar o que você procura.

      Abraços e boa sorte.

  • Interessante ver que mesmo após praticamente dois anos da postagem inicial, muitos dos pontos levantados no texto ainda estão sem resposta definida. Mostra sem dúvida a pertinência da discussão.

    Eu sempre gostei e estudei bastante sobre fotografia e linguagem visual, mas sempre a tive como um hobby. De uns tempos para cá, fiquei interessado em saber como funciona o mercado de arte para fotografia, quais os caminhos e acessos para poder expor trabalhos e, eventualmente vendê-los. Mesmo procurando informações pela internet (google), achei pouquíssima informação.

    Atualmente, na opinião de vocês, qual o melhor caminho a ser seguido por quem quer entrar nesse ramo?

    Um abraço para aqueles que acessam o site e meus parábens ao autor Geraldo Garcia.

  • Vanusa

    Olá, sou formada em Artes Visuais e, me interesso muito pelo mundo da fotografia. Estou “engatinhando”, mas estou amando tudo isso! Valeu pelas dicas!!!

  • Oi, estou conhecendo agora o mundo da fotografia e estou amando! gostaria de ter noticias sobre palestras , Works e cursos em Vitoria- Es que possam indicar.
    abraço.

Deixe uma resposta para solar panel Cancelar resposta

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>