Fator de corte e outras questões


 
Texto original publicado em 27/02/2005 na comunidade “Câmeras DSLR Brasil” do Orkut.
Texto revisado e complementado publicado em 30/09/2008.

Nota da revisão: Esse texto foi o primeiro artigo que escrevi para a comunidade e naquela época as objetivas específicas para câmeras APSC eram novidade. Em conseqüência disso o texto original estava incompleto e foi sendo remendado durante meses conforme as questões eram levantadas e respondidas. Fiz esta revisão para condensar e corrigir o texto e facilitar a leitura.

Olá,

Estou colocando nesse tópico algumas informações sobre o fator de corte das câmeras DSLR. Primeiro vamos entender direito o que é o tal fator de corte e depois vamos discutir um ponto controverso que anda assombrando muitos fotógrafos. Por favor, sintam-se livres para perguntar, discordar e complementar.

Entendendo o fator de corte:
Sim é “fator de corte” e não “fator multiplicador da distância focal” como muitos pensam. Por quê? Simples: As objetivas são construídas para que projetem um círculo de imagem no plano do filme (onde se encontra o filme nas câmeras de filme e o sensor nas digitais). O tamanho desse círculo é fixo. Qual é? É a diagonal do fotograma de filme “35mm”, Claro! Pensem comigo: O retângulo de 24x36mm que é o fotograma 35mm tem de ficar completamente inserido dentro deste círculo, sua diagonal é de 43,27mm, mas se sobrar algo para fora do fotograma este algo não será registrado. Conseqüentemente as objetivas são projetadas para gerar um círculo de imagem exatamente deste tamanho.

Até aí, tudo bem. O problema é que a maioria das câmeras DSLR não possui sensores “full frame” (do tamanho exato do fotograma 35mm), possuem sensores menores, num padrão chamado APSC. No caso das APSC Canon o tamanho é 15×22,5mm, o que gera um retângulo menor mas com as mesmas proporções (1×1,5). Esse retângulo menor fica centralizado no mesmo ponto em que ficaria o filme “35mm” (que seria bem maior). Como usamos as mesmas objetivas das câmeras de filme, o círculo de imagem projetado pela objetiva no plano do sensor ainda possui o mesmo diâmetro de 43,27mm, mas agora a diagonal do nosso sensor é de apenas 27,05mm, logo ele só capta o meio da imagem gerada. Assim sendo, sua foto feita com uma objetiva 50mm numa câmera destas vai ser na verdade um RECORTE da parte central da mesma foto feita com uma câmera de filme (ou com uma “full frame”) e a mesma 50mm. Isso nos dá a impressão de que a 50mm virou uma 80mm, mas é só a impressão.

De fato o ângulo de visão da 50mm passa a ser igual ao da 80mm e, conseqüentemente, a perspectiva também, pois essa é decorrente do ângulo de visão, mas a profundidade de campo continua sendo exatamente a de uma 50mm. A noção comum de que câmeras com sensores menores garantem uma maior profundidade de campo é uma ilusão decorrente do fato de que temos que nos afastar mais com essas câmeras para conseguir o mesmo enquadramento. A maior distância é que atua aumentando a profundidade de campo.

No caso dos sensores APSC da Canon o retângulo menor faz com que as objetivas tenham um ângulo de visão equivalentes às objetivas de distância focal 1,6 vezes maior (50mm x 1,6 = 80mm). Por isso é dito que o “fator de corte” dessas câmeras é de 1,6x.

Nas câmeras APSC de outros fabricantes (Nikon, Sony, Fuji, etc) os sensores são ligeiramente maiores que os da Canon, com fator de corte de 1,5x para a equivalência de ângulo de visão (50mm x 1,5 = 75mm).

 Sensores e círculos de imagem projetados

 

Para grande-angulares isso é um inferno: O sujeito paga caro numa 15mm para fazer fotos com ângulos e distorções radicais e, ao colocar na sua APSC ela passa a ter o ângulo de visão de uma 24mm. É triste…

Entretanto, para as teles e super-teles é um sonho. A sua 300mm “vira” uma 480mm… quase uma 500mm!!! Outro bônus nas super teles é a profundidade de campo: No caso de uma 300mm f:2.8 ela já é pequena o suficiente. Numa 500mm f:2.8 “de verdade” ela seria pequena ao ponto de impossibilitar o uso em muitas situações. No caso da 300mm que “vira” 480mm ao ser acoplada numa APSC, ela mantém a sua profundidade de campo original.

E ainda não falamos de preço, tamanho e peso!
Uma Canon 300mm f:2.8 L IS custa nos EUA US$ 4.000,00 e pesa 3Kg
Uma Canon 400mm f:2.8 L IS custa nos EUA US$ 6.700,00 e pesa 5,6Kg
Nesse exemplo usei a 400mm porque não existe uma 480 ou 500mm f:2.8 L IS. Se existisse seria MUITO mais cara, maior e pesada.

Isso pode levar algumas pessoas a perguntarem o seguinte: Então câmeras “full frame” são melhores para quem trabalha com grandes angulares e câmeras APSC são melhores para quem trabalha com teles?

Não necessariamente. Para atender aos apelos desesperados dos usuários de grandes angulares e de câmeras APSC os fabricantes começaram a colocar no mercado objetivas específicas para essas câmeras. Essas objetivas projetam um círculo de imagem menor, exatamente do tamanho da diagonal do sensor APSC, e isso facilita bastante o projeto ótico, possibilitando a criação de objetivas com distâncias focais ainda menores e mais baratas (22mm, 17mm, 12mm, 10mm, etc…) para “tapar o buraco” e suprir a carência de ângulos de visão radicalmente abertos.

Notem que mesmo nas objetivas específicas para APSC devemos multiplicar a distância focal pelo fator de corte para termos uma noção da equivalência do ângulo de visão. Por exemplo: Ao serem acopladas em uma câmera APSC com fator de 1,6x tanto uma objetiva 15mm para “full frame” quanto uma 15mm específica para APSC darão ângulo de visão de uma 24mm. A diferença é que a 15mm para APSC deve ser muito mais barata que a 15mm para “full frame”.

E a “normal”? Como fica?
Vamos primeiro entender o que é uma “objetiva normal“. Segundo os especialistas: A “normal” é a objetiva possui a distância focal igual à diagonal do fotograma e que, conseqüentemente, nos dá a noção de perspectiva e percepção de planos similar à dos nossos olhos. Quem já usou uma grande-angular sabe bem que elas dão uma noção de perspectiva exagerada, enquanto as teles tendem a achatar os planos da foto e minimizar a perspectiva. A “normal” fica no meio termo.

Alguns fotógrafos erradamente dizem que a “normal” é a objetiva que tem o “ângulo de visão” mais próximo do nosso. Isso não está muito certo, pois uma normal possui um ângulo de visão na faixa dos 46 graus e nossa visão (de um só olho) possui um ângulo de mais de 100 graus. Mas também não está totalmente errado, pois a área do nosso campo de visão geral (incluindo os dois olhos) na qual conseguimos manter a atenção sem mover os olhos tem aproximadamente essa abrangência.

As “normais” sempre possuem o mesmo ângulo de visão nos diversos tipos de câmera, mas suas distâncias focais variam em função do tamanho do fotograma. Exemplo: nas câmeras “35mm” sabemos que a diagonal do fotograma de 24x36mm é de 43,27mm e essa é a normal “verdadeira” para esse fotograma. Aí alguém sempre pergunta: “Mas a normal para nossas câmeras não é a objetiva 50mm?” A resposta é: não. O que acontece é que as 50mm são as objetivas produzidas em larga escala que mais se aproximam da “normal”, por isso ganharam o rótulo, mas a “normal verdadeira” seria uma 43mm.

Numa câmera de médio formato como uma 6×7 a “normal” é uma 92mm. O fotograma possui 60x70mm, logo a diagonal do fotograma é 92mm (conseqüentemente o diâmetro do círculo de imagem projetado no plano do filme tem que ser no mínimo desse tamanho). Justamente em função do fotograma maior a distância focal da objetiva tem que ser maior para manter o mesmo ângulo de visão.

Nas digitais APSC a diagonal do sensor é de 28mm aproximadamente, portanto essa é a “normal verdadeira” para esses sensores e quem quiser o ângulo de visão e a perspectiva de uma “normal” deve usa-la. Na verdade quem estiver acostumado com a 50mm nas câmeras de filme e quiser algo similar deve recorrer a uma 30mm, pois como já dissemos, a 50mm é um pouco mais fechada que a normal verdadeira para o fotograma “24x36mm”.

Por enquanto é só. Sintam-se à vontade para perguntar e complementar.

Abraços.

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